5.12.06

Asylum II

Após a terceira semana perdi as contas dos dias que passei ali, apesar de que nenhum dia era como o outro achei que enquanto estive ali o que menos importava era o tempo, entravam e saiam pessoas como em feiras populares e os poucos residentes fixos me puseram a margem de suas conversas, como num clube em que estará excluído, o único ao qual me dava alguma atenção era um cara chamado Dingo, esse era o nome a qual todos o chamavam pelo fato dele estar sempre vestido de palhaço (com maquiagem e tudo) e estar escrito no seu babador branco com bolinhas prateadas, nunca falava, mas vivia atrás de mim, como se eu o inspirasse, mesmo não sendo inspiração pra mim mesmo, certo dia uns caras tentaram mexer conosco, ficaram nos cercando e na hora em que iam nos encher de porrada ele tirou uma garrafa pequena de Ypióca limão do bolso como um trunfo, como não era permitido beber ali os caras livraram nossa cara em troca da garrafa, tinha que dar meus votos de confiança ao imbecil maquiado, uma semana depois me trouxe uma mesma garrafa a que tinha dado aos idiotas e aquilo fez com que tivesse de fato minha confiança.
Eu era o mais são dos loucos e com certeza o mais louco dos sãos, certo dia, com algo errado no sistema as portas se abriram e todos podiam sair dos seus quartos, quase todos saíram correndo mesmo não tendo pra onde ir (destravaram apenas as portas dos quartos e não as da saída), muitos iam de um lado para o outro sem ter o que fazer, muitos cansaram de fazer isso e voltaram para seus quartos, outros tentavam inovar e até subiam em lugares não muito recomendáveis, eu tentará ler Uma estadia no inferno de Rimbaud mais como não conseguia entender direito mesmo fui ver o que estava acontecendo no corredor, pessoas pra lá e pra cá sem muito motivo, e na algazarra vi saindo de um dos quartos um pequeno filete de fumaça, não tendo o que fazer, entrei no quarto e antes de ver de onde vira a fumaça percorri com os olhos longas pernas que se fizeram aparecer, pernas que tinham sido feitas sem poupar mão de obra, meus olhos vieram de encontro os da então:
- Sofie... Disse a mulher dentro do quarto e tragou novamente sua cigarreira.
- Onde conseguiu os cigarros?
- Você quer um?
- Eu não fumo.
Deu outra tragada e soltou a fumaça lentamente.
- Você não disse seu nome.
- O que está fazendo aqui?
- Fumando um cigarro.
- Quer ver uma coisa?
- Se você quiser mostrar.
Tirei do bolso a meiota de Ypióca de limão que estava pela metade.
- Quer um trago? Perguntei
- Senta aí.
Sentei e passei a ela a garrafa.
- Quer jogar?
- Jogar?
- É
- Jogar o quê?
- Você é um pouco lento hein? Se você perder me traz uma garrafa dessa todo dia até o fim do mês.
- E se você perder?
- Faço sexo oral em você.
- Fechado.
Tirou um baralho atrás de si.
- Você tira uma carta e eu outra, quem tiver a maior ganha.
- Fácil.
Tiro um valete de paus. Ela um valete de ouros.
- Empate. Declaro.
- Justo. Tive então a melhor chupada de toda a minha vida. Quando o mês acabou e minha entrega de garrafas também, ela (a mulher da cigarreira) se foi para outra cidade e descobri que ela era a terapeuta. Pra ser exato uma prostituta contratada para os residentes do local, paguei por uma puta paga, mas nunca me arrependi por aquilo, o que se come hoje se caga amanhã, e os únicos resquícios de passados são as memórias que no meu caso são substituíveis.
Carlos Augusto Limm

Nenhum comentário: